Uma conversa em torno de José Américo de Almeida

Mestre da palavra e da arte de ensinar o gosto pela literatura, Genuíno Sales fala sobre José Américo de Almeida – que chegou a conhecer, em um encontro rápido e marcante

Embora José Américo de Almeida seja muito lembrado por uma só obra, como se pode caracterizar o conjunto da sua produção literária?

Era uma obra que primava pela natureza da língua, pelo prestígio e pelo pensamento da língua. Ele era um pensador. Não dizia quatro palavras que não fossem um pensamento. Ele diz, por exemplo, que ´ver bem não é ver tudo. É ver o que os outros não vêem´. Ou então: ´Pior do que morrer de fome no deserto é não ter o que comer na terra de Canaã´. São coisas de um grande autor, um grande pensador, autor de uma obra mais vasta. Mas claro que ´A Bagaceira´ é um romance importantíssimo. Considero José Américo o maior regionalista brasileiro, e ´A Bagaceira´ foi o primeiro romance regionalista da Geração de 30. Depois é que vêm os outros, Graciliano, Rachel, também muito grande. Mas José Américo foi pioneiro.
Genuíno Sales
Que ponte se pode estabelecer entre autores regionalistas anteriores, como os cearenses Domingos Olímpio e Franklin Távora, e a obra de José Américo e o regionalismo de 30?

É uma questão de domínio, de visão e de interpretação da realidade. Aquela nossa realidade do Franklin Távora, do ´O Cabeleira´, era uma forma ainda ligada à expressão romântica e realista. Não havia toda a caracterização da linguagem que o José Américo de Almeida usa e o Graciliano Ramos, mais ainda. Como ´Luzia Homem´, do Domingos Olímpio, é um começo para algo que vai dar no romance de 30. E o José Américo tinha muito forte a questão ideológica, sem deixar de trabalhar a linguagem. Dizia, por exemplo, que ´ir à janela é uma forma de ver o mundo sem sair de casa´. Que ´o amor é uma gradação dos sentidos: começa pela necessidade de ver´. Então, é como se a gente fosse de uma geração realista para outra, neo-realista.

O que fica do regionalismo para a literatura brasileira atual, para novos autores?

Fica muita coisa: o lado ideológico, a sabedoria, o conhecimento da terra e do homem, como expressão política e filosófica da realidade. Quem diz que regionalismo não existe é quem não tem sabedoria. É preciso ter sabedoria pra compreender essa transmissão. Agora, tem muita gente que quer fazer regionalismo deturpando palavras, dizendo besteiras. O que caracteriza o escritor regionalista é ser sábio. Não é ser sabido, é ser sábio, como José Américo. O regionalismo continua influenciando a literatura brasileira e está muito presente na obra de autores da atualidade, como o Fontes Ibiapina, o Magalhães da Costa, piauienses. E aqui no Ceará é uma plêiade de escritores, como o nosso João Clímaco Bezerra (antecessor de Genuíno na cadeira de número nove da ACL), um grande romancista regionalista e contista.

Que comparação se pode fazer entre a prosa regionalista de José Américo e a escrita de Guimarães Rosa?

É uma comparação realmente necessária. O que Guimarães Rosa e José Américo fazem é praticamente a mesma coisa, com exceção do problema da linguagem, do vocábulo, da criação das palavras. Mas a lógica regionalista é a mesma. Tanto é assim que eu, piauiense, não tive a menor dificuldade de compreender ´Grande Sertão: Veredas´, porque parece muito as coisas de lá, as coisas do interior do Piauí. Ele tá dizendo coisas ali como se fossem uma experimentação, mas aquilo é mesmo que um caboclo do Piauí falando. Agora, quem nasce lá no Rio de Janeiro, aí deve achar difícil entender. Agora, assim como Guimarães Rosa era um grande contista, e seus contos são de certo modo sufocados pela dimensão de ´Grande Sertão: Veredas´, com o José Américo de Almeida acontece algo parecido, em relação aos livros de memórias dele, que são importantes, mas são sufocados pela dimensao de ´A Bagaceira´.

Por que essa atenção quase que exclusiva foi se consolidando ao longo do tempo, como se fosse um autor de uma obra só?

Porque a obra literária tem que ter uma oportunidade, uma ocasião. Por exemplo, pra mim ´Dora Doralina´ não tem nada de inferior a ´O Quinze´. Mas ´O Quinze´ foi a ocasião, o contexto. Essas obras em que a qualidade literária encontra a ocasião, a oportunidade, é que ficam realmente como os grandes clássicos.

E como foi o seu encontro com o José Américo?

Foi muito rápido, mas emocionante pra mim. Ele foi simpático, me atendeu. Foi em Natal, naquele hotel Três Reis Magos. Eu tive a oportunidade de cumprimentá-lo. Estava lá, e chegou aquele homem de terno, de cabelão, meio careca, meio com o cabelo arrupiado. Ele já tinha mais de 80 anos. Eu perguntei quem era, disseram que era o escritor José Américo de Almeida. E eu: ´Vou já falar com ele´. Cheguei: ´O senhor dá licença. Eu sou estudante, queria cumprimentar o senhor´. Ele me cumprimentou, foi simpático.

 

fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/jamerico.html#genuino

Autor do post: João Victor

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